Balança comercial fica favorável com queda na importação de máquinas chinesas, que já são 9,3% dos produtos importados pelo Brasil. Empresa da China pode abrir fábrica no País
A crise global inverteu a tendência do comércio entre Brasil e China e transformou o déficit em superávit. O Brasil acumulou um robusto saldo de US$ 2,8 bilhões com os chineses de janeiro até a segunda semana de junho. No primeiro semestre de 2008, o déficit do comércio bilateral estava em US$ 1,5 bilhão, conforme a Secretaria de Comércio Exterior (Secex).
Dois fatores explicam a reviravolta nas relações comerciais com o dragão asiático: a recomposição de estoques de commodities na China, que incentivou as vendas de minério de ferro e de soja, e a queda da produção industrial no Brasil, que derrubou as importações de componentes e máquinas chinesas.
Para o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral, o Brasil vai obter um "superávit importante" com a China em 2009. Ele ressaltou que o impacto para a balança é significativo, pois o país asiático é responsável hoje por 22,5% do superávit do Brasil com o mundo.
Os economistas acreditam que o saldo atual é um "ponto fora da curva" e o Brasil deve retomar o padrão de déficits crescentes com a China a partir de 2010. No segundo semestre, a tendência é de superávits menos expressivos, à medida que a economia brasileira se recupera e a China termina de recompor os seus estoques.
"Provavelmente estamos no ápice desse superávit, que deve se reduzir ao longo do ano", disse Rodrigo Maciel, secretário-executivo do Conselho Brasil-China, que reúne empresas nos dois países, como as brasileiras Vale e Embraer e as chinesas Baosteel e Huawei.
Apesar da crise, que reduziu o ritmo de crescimento da economia chinesa, as exportações brasileiras para a China sustentaram alta de 34,5% de janeiro até a segunda semana de junho. Graças ao bom desempenho das commodities, os chineses se tornaram o principal parceiro comercial do Brasil em 2009.
As vendas de minério de ferro, principal produto da pauta de exportação do Brasil para a China, aumentaram 97% de janeiro a maio. No caso da soja, o ganho foi de 27% no período. A receita obtida com a exportação de petróleo para a China caiu 41%, por causa dos menores preços, mas o volume embarcado cresceu 70%.
"No fim de 2008, os chineses pararam de comprar commodities por causa da crise. No início deste ano, aproveitaram os preços mais baixos e recompuseram os estoques", disse Júlio Sérgio de Almeida, professor da Unicamp e ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda.
As importações vindas da China foram em sentido contrário. Depois de crescer 59% em 2008, as compras de produtos chineses recuaram 23,5% de janeiro até a segunda semana de junho. Segundo Júlio Callegari, economista do banco JPMorgan, a queda é resultado da forte contração da economia brasileira após a crise. A produção industrial caiu 14,7% de janeiro a abril em relação a igual período de 2008, conforme o IBGE.
Cálculos do Conselho Brasil-China indicam que 65% das importações vindas da China são insumos e máquinas para a indústria. "A indústria sofre a concorrência chinesa, mas também se beneficia com insumos e máquinas mais baratos. Depende do setor", disse Maurício Moreira Mesquita, economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Por causa da queda da produção industrial, o Brasil importou, por exemplo, US$ 652 milhões a menos em aparelhos e componentes elétricos da China de janeiro a maio, o que significa um recuo de 27%. As importações de máquinas e aparelhos mecânicos chineses também caíram 23%.
Segundo Roberto Giannetti da Fonseca, diretor do departamento de comércio exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), "sem utilizar componente chinês, a indústria não consegue ser competitiva". Ele acredita que o Brasil deve voltar a ter déficit com a China em 2010, porque a complementaridade das duas economias favorece os chineses.
O saldo apurado no primeiro semestre deste ano supera o de 2003, quando o Brasil obteve seu melhor desempenho no comércio com a China, um superávit de US$ 2,4 bilhões. Esse resultado se deteriorou com o tempo e o Brasil teve déficit recorde de US$ 3,6 bilhões com os chineses no ano passado.
Máquinas chinesas ganham espaço no Brasil
Começa a fazer parte do passado a identificação da importação de produtos chineses com bens de consumo, como roupas, guardachuvas e cadeados. Desde o ano 2000, a entrada de itens como rolos compressores, escavadeiras, motoniveladoras, empilhadeiras e pás carregadeiras cresce exponencialmente. Há nove anos, as máquinas e equipamentos chineses significavam 0,85% do total comprados no exterior pelo Brasil, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Em 2004, já atingiam 2,1%. Dois anos depois, a porcentagem chegou a 5,1%. Em 2008, bateu em 9,3%, proporcionalmente dez vezes mais do que o registrado oito anos antes.
A evolução é ainda mais impressionante quando se leva em conta que a importação brasileira de bens de capital como um todo multiplicou por apenas três vezes entre 2000 e 2008, passando de cerca de US$ 7 bilhões para US$ 22 bilhões. Em números absolutos, a fatia chinesa desse bolo passou de US$ 60 milhões, há nove anos, para US$ 2 bilhões no ano passado. Em 2009, porém, a participação chinesa sobre as importações de bens de capital diminuiu. Beneficiadas por um mercado interno aquecido, essas indústrias preferiram manter preços, perdendo participação no mercado brasileiro, que encolhe devido à crise. Diante desse cenário e da perspectiva de expansão das vendas no longo prazo, algumas indústrias começam a investir em estrutura própria no Brasil.
"Ganhamos mercado competindo em preço" comentou Zeng Guang´an, vice-presidente da Liu Gong, uma empresa chinesa instalada em Guang Xi, a maior produtora de pás carregadeiras na China, com 38 mil unidades por ano. No Brasil, onde instalou no mês passado um escritório em Belo Horizonte, a BH Máquinas, o executivo chinês disse que a importação começa a ganhar escala suficiente para que a Liu Gong pense em produzir localmente. A primeira remessa de pás carregadeiras da Liu Gong em 2007 foi de apenas 20 máquinas. No ano passado, já foram vendidas 140 unidades. Este ano, a Liu Gong prevê fechar com 450 itens vendidos no Brasil. Somente no primeiro quadrimestre foram comercializadas 150 máquinas. "Com mil vendas por ano, já podemos instalar uma unidade fabril, para atender ao Brasil e aos países vizinhos", disse o presidente da Liu Gong para a América Latina, o americano Jim Donaghue.
Em 2008, a Liu Gong montou uma fábrica na Índia, mercado onde conseguiu vender 500 unidades. "Decidimos produzir localmente ali em razão do protecionismo indiano. Mas no Brasil os competidores locais são muito mais fortes do que lá e precisamos ganhar maior escala para pensar em produzir no País e permanecermos competitivos em preço", disse Zeng. A Liu Gong é uma empresa controlada pelo governo chinês, mas com 60% de seu capital negociado em bolsa. Faturou US$ 1,6 bilhão no ano passado e projeta este ano um crescimento de 10%, mesmo com a crise econômica global. "O mercado chinês garante nosso crescimento, porque atendemos diretamente aos investimentos governamentais em infraestrutura".
O crescimento da Liu Gong no Brasil em 2009 vai contra a tendência da importação de bens de capital chineses este ano. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento da Indústria e do Comércio, houve um desaquecimento das encomendas em 2009. As importações de bens de capital chineses entre janeiro e maio atingiram 160 mil toneladas de aço entre janeiro e maio, consumindo US$ 1,6 bilhão. No mesmo período em 2008 foram trazidas 200 mil toneladas por US$ 2,6 bilhões.
De acordo como o diretor da área de comércio da Abimaq, Nelson Delduque Costa Júnior, salvo na área de óleo e gás, é difícil conceber a vinda das linhas de produção de exportadores como a Liu Gong. "A China tem uma estrutura de custos inigualável, ao poder estabelecer a taxa de câmbio que considera mais conveniente para a exportação e lidar com uma mão de obra muito barata. Eles desenvolvem uma concorrência voltada unicamente para o barateamento do produto final, vendendo às vezes a mercadoria a preço de custo. São condições que se consegue produzindo lá, e não aqui."
Outra empresa chinesa a instalar rede de vendas no Brasil é a Shandong Lingong Construction Machinery (SDLG), fundada pelo governo em 1972 e privatizada nos anos 90. A empresa tem como principal sócio a Volvo Construction Equipment (Volvo CE) e está entre as quatro maiores produtoras de carregadeiras da China. No início do mês, a SDLG anunciou investimento de US$ 7 milhões no Brasil (US$ 10 milhões em toda América Latina) na instalação de uma rede de vendas da marca. No Brasil, serão instalados 36 pontos de vendas e na América Latina, 67 pontos de venda. Além do Brasil, já foram implantadas unidades na Argentina, no Uruguai e no Chile.
"O mercado potencial de vendas de carregadeiras é de 5,8 mil unidades no Brasil e nove mil unidades na América Latina por ano", observa o diretor de negócios da SDLG Latin America, Afrânio Chueire. O volume de vendas, disse, não é suficiente para exigir a instalação de fábrica no País. A empresa antes vendia máquinas para construção a importadores brasileiros. Em 2007, foram enviadas 85 unidades ao Brasil; em 2008, o volume subiu para 127 unidades. A expectativa é atingir 230 unidades neste ano e 422 em 2010. "A meta é alcançar 10% de participação do mercado da América Latina, ou 650 unidades já no próximo ano", afirmou Chueire. O cenário de crise, diz, não prejudicou os planos da empresa para o Brasil. "O mercado está menor do que no ano passado, mas isso não afetou os planos de longo prazo".
O agravamento da crise internacional levou as indústrias brasileiras a adiar investimentos. Como resultado, as importações sofreram forte desaceleração. De janeiro a abril, o crescimento foi de 3,6%, muito inferior aos 48,5% acumulados de janeiro a agosto de 2008, mês de pico das importações. As compras da China, no quadrimestre, recuaram 12,8% e o país perdeu participação nas importações brasileiras, para 8,4%, ante 9,7% em igual intervalo de 2008.
"A crise não afetou os investimentos na China como afetou aqui. O mercado interno de máquinas chinês continua aquecido e, por isso, as empresas exportadoras estão menos dispostas a baixar preços para manter o ritmo de vendas, diferentemente do que vêm fazendo exportadores de outros países", observa o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei), Thomas Lee. A dificuldade em renegociar preços também é apontada como uma das causas para a instalação de redes de distribuição direta pelas empresas chinesas.
Duas das maiores importadoras de máquinas e equipamentos corroboram essa teoria. O diretor presidente do Grupo Megga, Stefan Lee, afirma que os produtos chineses perderam competitividade durante a crise em termos de preço.
"Tenho fornecedores que estão me dando descontos sem eu pedir, só para manter o nível de produção e reduzir o seu custo fixo. As empresas chinesas não precisam dar descontos porque estão com o mercado interno aquecido", afirma. Stefan Lee não informa o nível de queda nas vendas de máquinas-ferramentas, mas considera que a empresa levará de três a cinco anos para retomar o nível de vendas obtido em 2008. "Haverá uma recuperação gradual, mas é um processo lento", diz. Segundo ele, as vendas de ferramentaria para produção de moldes para a indústria automotiva e sopros de plástico (para indústrias de alimentos) já retomaram as encomendas. "Acredito que outros setores voltarão a investir em máquinas e ferramentas a partir do segundo semestre".
O Grupo Bener, importador de máquinas-ferramentas, relatou queda de 50% nas importações no primeiro semestre, em comparação com o mesmo período de 2008. O diretor-comercial, Paulo Lerner, afirma que a maioria das empresas brasileiras parou de comprar máquinas-ferramentas em função da crise externa - a China é um dos principais países fornecedores desse segmento - o que causou elevação dos estoques. "O grupo chegou a importar 40 contêineres por mês em 2008. Hoje, se chegar a quatro por mês é muito", afirma. Bener diz ter reduzido drasticamente as importações nos meses anteriores, sobretudo da China. Agora, com a melhora do cenário macroeconômico brasileiro, ele vê retomada das encomendas das indústrias, e prevê a retomada gradativa das importações, podendo chegar a dez contêineres por mês até o fim do ano.
Governo prepara novo pacote para incentivar exportações
O governo federal deve apresentar nos próximos dias medidas para aliviar o setor exportador. Há movimentos do Executivo nessa direção e a solução pode ser anunciada junto ao pacote já esperado pelo setor de bens de capital. A principal reivindicação dos exportadores está relacionado a compensação dos créditos acumulados de tributos - IPI, ICMS, PIS e Cofins. A ideia é que o estoque passado de tributos detidos pelo fisco possa ser restituído via transferências para terceiros ou quitação direta de dívidas pelo Tesouro Nacional.
As vendas para o exterior são imunes de impostos diretos - isto é, a Constituição prevê a não incidência direta. O problema é que indiretamente os exportadores acabam pagando impostos quando não conseguem recuperar créditos, porque foram embutidos nas compras de insumos e mesmo bens de capital. Esses créditos ficam detidos pelos fiscos, o que poderia ser resolvido com mudanças na legislação.
"Já houve sinalização do Governo para que isso aconteça. Deve ser por meio de Medida Provisória", diz Otávio Cançado, diretor executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Pleito antigo do setor, Cançado diz que a crise financeira acelerou as negociações da compensação do crédito presumido do PIS/Cofins. Ele, no entanto, não aposta em transferência para terceiro do crédito. "O setor quer liquidez imediata ao crédito passado", afirma. Cançado acrescenta que a compensação do PIS/Cofins não é benesse, mas impostos gerados.
Mas há quem duvide que o Governo seja capaz de avançar nesse sentido. "Imposto retido e câmbio são alívios para o exportador", destaca Júlio Almeida, diretor executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). "A vida do exportador especialmente de manufaturados, diante da dificuldade do quadro externo poderia melhorar", acrescenta. Apesar a necessidade, Almeida não vê o Executivo seguindo este caminho.
Se as apostas dos bastidores se concretizarem, o Governo acertará dois setores afetados pela crise: a indústria e as exportações. Os tributos negociados tanto pelo setor de bens de capital como pelos exportadores têm um peso expressivo na arrecadação. Em maio, o PIS/Cofins, na receita administrada, representou cerca de 23% do total.
Para o economista da Tendências Consultoria, Felipe Salto, os espaços fiscais para o Governo atuar com não são muitos. No caso específico das ações voltadas aos bens de capital, Salto vê a vantagem de que a medida seria homogênea e estimularia os investimento no setor privado. O economista ressalta que a disposição da equipe econômica de apresentar novas medidas coincide com as chances de escalonar as alíquotas do IPI dos automóveis
Produção x exportação
Um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) mostra que a retração das exportações foi responsável por metade da queda na produção industrial nos seis meses seguintes ao agravamento da crise internacional. No caso da indústria de transformação, o efeito total foi ainda maior, com as vendas ao exterior respondendo por 55% da redução na produção. "Da queda da produção industrial, cerca de 30% é efeito direto do recuo de exportação, e outros 20% de efeitos indiretos causados pela queda", explica Fernando Puga, economista do BNDES.
"Qual era a grande questão? Entender porque o desempenho da indústria tinhas sido muito pior do que a expectativa, não obstante as vendas para interno não terem caído e a participação das exportações dentro do setor representar apenas 20%", diz.
Segundo Puga, foi observado que o peso das exportações era maior do que se pensava em razão do encadeamento entre os setores industriais. Porém, esse encadeamento indica que a recuperação da produção industrial tende a ser rápida em um cenário de retomada das exportações. |